terça-feira, 19 de abril de 2011

A Missão Mais Dolorosa

Sgt PM Márcio Alexandre Alves, aclamado herói nacional.


Existem momentos na vida que simplesmente preferíamos que não fossem verdade. E como explicar a coexistência de dois sentimentos tão contraditórios? Só mesmo um herói para suportar tamanha pressão e sintetizar tudo em uma só frase: “Preferia não estar vivendo nada disso e ter todas aquelas crianças de volta!”. Essas foram as palavras do Sargento PM Márcio Alexandre Alves, em referência ao massacre de Realengo, durante a cerimônia de sua promoção por Ato de Bravura.
O evento foi realizado às 9h do dia 12 de abril no Salão Nobre do Quartel General da Polícia Militar, no Centro do Rio de Janeiro. Estavam presentes o ilustre Presidente em exercício Michel Temer; o Governador Sérgio Cabral, o Prefeito Eduardo Paes, além de diversas autoridades federais, estaduais e municipais. O Comandante Geral da Polícia Militar, Coronel Mário Sérgio Duarte de Brito, abriu a cerimônia lembrando o trágico acontecimento e fez questão de levar uma palavra de fé, esperança e solidariedade para a população do Estado do Rio de Janeiro. O Governador Sérgio Cabral assinou a Promoção por Ato de Bravura dos policiais militares Márcio Alexandre Alves, promovido a 2º Sargento; Ednei Feliciano da Silva, promovido a 3º Sargento e Denílson Francisco de Paula, também promovido a 3º Sargento. Todos participaram diretamente da missão que neutralizou o autor da ação insana e covarde que deixou 12 crianças mortas e 190 milhões de brasileiros “feridos”.
O sargento Alves, comandante da guarnição e responsável pelo disparo que evitou uma tragédia ainda maior, recebeu sua promoção diretamente das mãos do Presidente em exercício, Michel Temer, que parabenizou a equipe e toda a corporação pelo sucesso da ocorrência.
  Para o Secretário de Estado de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, este exemplo deve ficar para a Corporação e para que a população perceba os bons policiais que têm.

domingo, 17 de abril de 2011

Mulheres no poder


Cláudia de Melo Lovain. Talvez esse fosse somente o nome de mais uma mulher que luta para se posicionar na sociedade brasileira, dividindo seu tempo entre a família e o mercado de trabalho que a cada dia é mais competitivo e disputado. Mas esta cidadã se destaca, entre as muitas brasileiras de fibra, por vários motivos e a exemplo da Presidente Dilma Rousseff e da Delegada Martha Rocha, Cláudia está escrevendo seu nome na história recente da cidade do Rio de Janeiro. Primeiro por ter escolhido como profissão uma carreira que ainda é vista com muito preconceito e pouco comum para as mulheres, Claudia, é Oficial da Polícia Militar. Mas os contrastes não param por aí, a Tenente-Coronel PM Lovain, ocupa atualmente o segundo posto de maior graduação dentro da hierarquia da bicentenária instituição.

Componente das fileiras da Polícia Militar há 20 anos, Coronel Lovain, como é tratada por seus pares e subordinados, é atual comandante do 19° Batalhão de Polícia Militar, em Copacabana. A unidade que foi criada em 13 de maio de 1974, é responsável pelo policiamento dos bairros de Copacabana e Leme, possui um efetivo aproximado de 400 Policiais Militares, todos sob o comando da Oficial PM. Segundo a Comandante Cláudia, o fato de ela ser mulher e exercer um cargo de comando nunca foram motivos para ter problemas com seus policiais.

Lovain afirma que durante sua gestão a frente do batalhão já teve três grandes desafios: a parada gay em outubro de 2010 que reuniu cerca de 200 mil pessoas, o show do cantor Roberto Carlos na praia de Copacabana em dezembro de 2010 que reuniu aproximadamente 400 mil pessoas e, o grande desafio, que legitima o nome da Coronel Lovain a ser registrado na memória dos cariocas, foi o réveillon 2011 que reuniu cerca de 2 milhões de pessoas e foi um grande sucesso. O fato é que, pela primeira vez na história, a segurança do Reveillon da orla de Copacabana, um dos mega-eventos mais importantes do Brasil e uma das maiores festas populares do planeta, ficou sob total responsabilidade de uma mulher. Este acontecimento inédito e histórico rendeu a Coronel Cláudia Lovain um programa gravado ao vivo durante o Réveillon ao lado da repórter Sônia Bridi da Rede Globo e várias entrevistas para emissoras de TV, jornais e revistas.
Cláudia acha que a mulher moderna que trabalha fora e divide seu tempo entre a carreira e a família, tem que tentar administrar seu tempo da melhor maneira possível e fazer dos poucos momentos ao lado da família, momentos de “qualidade maior”. A Coronel afirma que além da preocupação com a família, tem uma preocupação muito grande com o efetivo que está sob seu comando e com todos os moradores das áreas onde a segurança está sob sua responsabilidade.
           
- “Me sinto muito orgulhosa por chegar aonde cheguei na carreira militar e agradeço as veteranas que entraram na PM antes de mim e foram pioneiras na luta por condições e direitos de igualdade dentro da corporação”, afirma Lovain, dizendo que “a população de Copacabana e do Leme pode ficar tranqüila, pois estão em mãos cuidadosas”.

“Balanço Geral” A construção de um personagem na disputa pela audiência popular

Neste breve ensaio pretendo usar como tema o Programa “Balanço Geral” veiculado pela Rede Record de Televisão e apresentado no estado do Rio de Janeiro por Wagner Montes. Meu objeto de análise será o modelo de apresentação do programa e as técnicas utilizadas pelo apresentador e sua equipe de produção na disputa pela audiência “popular” como forma de exercer o controle/poder.

No texto de Muniz Sodré “O globalismo como neobarbárie” extraído do livro “Por uma outra comunicação” (Editora Record 2009, página 22), Sodré afirma que: “ Hoje, todavia, fica bastante claro que a linguagem/discurso cria, mais do que reflete, a realidade. Em outras palavras, não é apenas designativa, mas principalmente produtora de realidade. E a mídia ou conjunto dos meios de comunicação de que se vale fortemente a ideologia globalista é, a exemplo da velha retórica, uma técnica política de linguagem. Mais ainda: potencializada ao modo de uma antropotécnica política – quer dizer, de uma técnica formadora ou interventora na consciência humana – para requalificar a vida social, desde costumes e atitudes até crenças religiosas, em função da tecnologia e do mercado”. Ainda segundo Sodré “quando um grupo hegemônico obtém da sociedade a aceitação de uma ideologia, está obtendo aval semântico para uma pletora de pontos de vista, visões de mundo, articulações de senso comum e representações sociais guiados por um sentido determinado”.

É fato que o modelo do programa exibido pela Record Rio não é uma criação autêntica, tampouco seu apresentador/personagem, mas sim uma tentativa de reprodução da “fórmula” do já consolidado e pioneiro programa homônimo exibido no Estado da Bahia inicialmente pelo apresentador Fernando José Guimarães Rocha, popularmente conhecido como Fernando José, que era radialista e comentarista esportivo. O sucesso do programa na Bahia foi tanto que rendeu a seu apresentador, Fernando José, uma vitória expressiva nas urnas de Salvador, onde foi eleito prefeito para gestão de 1989/1993.  Atualmente o apresentador do Balanço Geral na Bahia é Raimundo Varela que também foi ex-comentarista esportivo, de onde se pode perceber que na escolha do apresentador, já se busca uma identificação com o “popular”.

 Primeiramente vamos tentar definir o que é o Programa Balanço Geral. Veja como a emissora responsável por sua veiculação no Rio de Janeiro define o programa em seu site: “Um dos maiores sucessos da emissora: o Balanço Geral. O programa traz sempre reportagens exclusivas e denúncias dos problemas do Estado do Rio de Janeiro, como a saúde pública e a segurança da população. Ao vivo, de vários pontos da cidade, uma grande equipe de repórteres leva até você as notícias em tempo real. É prestação de serviço para a população do Rio de Janeiro.” (Fonte http://www.recordrio.com.br/programas.php?p=1)

Agora veja como é definido o apresentador: Nascido e criado no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o apresentador e hoje Deputado Estadual pelo PDT Wagner Montes adquiriu na infância pobre os alicerces para a construção de uma carreira sólida. Uma de suas características mais marcantes, além da solidariedade, é a disposição para o trabalho”. (Fonte  http://www.recordrio.com.br/programas.php?p=1&a=1)

            Perceba como é construída a imagem do programa e do apresentador tentando invocar a legitimidade do “popular”, onde podemos notar o uso de palavras que evocam fortes valores nas classes menos favorecidas como: disposição para o trabalho, solidariedade, infância pobre, nascido na Baixada Fluminense, saúde pública e segurança da população. Nesta construção cuidadosa da imagem, foram deixadas de lado palavras como cultura e educação.

Jesús Martin-Barbero em seu livro “Dos Meios às Mediações” (Editora UFRJ 2009, página 34), cita Rousseu, onde afirma que “Uma sociedade moderna não é pensável, se não é constituída a partir da “vontade geral” e essa vontade é por sua vez que constitui o povo como tal”. Ainda segundo Barbero, “a invocação do povo legitima o poder da burguesia na medida exata em que essa invocação articula sua exclusão da cultura. E é nesse momento que se geram as categorias “do culto” e “do popular”.


Em abril de 2011, durante apresentação em sala de aula aos alunos do 7º período do curso de Comunicação Social/jornalismo da Faculdade Pinheiro Guimarães deste mesmo tema de estudo, após ser exibido um bloco do programa “Balanço Geral” onde o apresentador Wagner Montes faz gracejos, fingindo chorar e depois dançando, cantando e fazendo piadas, arrancando risadas da platéia por zombar da morte de dois homens que segundo a polícia seriam traficantes de drogas ilícitas e teriam sido mortos após um confronto armado onde resistiram à voz de prisão. O óbito, segundo o apresentador, é justificado pelas imagens de duas armas e algumas drogas que, ainda segundo os policiais que conduziram a ocorrência, teriam sido apreendidas com os dois homens mortos. Durante seu “discurso do justiceiro” Wagner Montes menospreza o fato de que duas vidas foram extintas e zomba deste ato grotesco como esses seres humanos fossem lixo e precisavam ser varridos da sociedade. Mas todo esse clima de tensão da morte dos dois elementos é constantemente alternado com gracejos e dançinhas desengonçadas, pois o apresentador sabe lançar mão da condição de ser amputado de uma das pernas e, a própria produção do programa explora tal fato quando solta uma voz em Off que diz: “Dança perneta!” e Wagner chacoalha seu corpo obeso, se equilibrando na perna mecânica, fazendo caras e bocas ao som do que chama de “A dança do capiroto”.

Pedi aos alunos que me ajudassem a definir “o que” poderia ser o programa Balanço Geral, essas foram algumas respostas:
- Espetáculo
- Circo
- Feira
- Festa
- Praça Pública

            Vamos tentar entender o valor simbólico da “Festa”, identidade que o programa tenta adotar, como potência de produção de socialidade. No livro “O Império do Grotesco” de Muniz Sodré e Raquel Paiva (Editora Mauad, 2004, páginas 106 e 107), os autores afirmam que: “No sentido trabalhado por Bakthtin, isto é, a praça como feira livre das expressões diversificadas da cultura popular (melodramas, festas de largo, danças, circo, etc.) ou como lugar de manifestação do espírito dos bairros de uma cidade, com suas pequenas alegrias e violências, grosseiras e ditos sarcásticos, onde a exibição dos altos ícones da cultura nacional confronta-se com o que diz respeito ao vulgar ou “baixo”: os costumes e gostos, às vezes exasperados, do populacho”... “Esse tipo de espaço mantém estreita ligação com a festa, antropologicamente entendida como transformação cerimonial de antigos ritos agrários, destinados a celebrar instantes significativos da vida cotidiana, como a época da colheita, a chegada da primavera, o solstício de verão, etc. A origem latina da palavra (festum, dies festus, dies festivalis, feriae) tem conotações religiosas, uma vez que provinha das designações de datas consagradas à celebração dos deuses. Feriado, festa e feira pública são termos semanticamente interligados”.
            “Desde as épocas mais remotas da humanidade, a festa aparece como teatro simbólico das vicissitudes identitárias do grupo, portanto, como lugar de ritualização dos conflitos em torno do controle social.

Agora vamos tentar entender a construção do apresentador/personagem Wagner Montes, que ao longo de mais de três décadas na TV agrega características que o fazem, hoje, ostentar elevados índices de popularidade, a ponto do seu bordão “Escraaacha”, tornar-se uma marca. Mas isso nem sempre foi assim, Wagner já apresentou diversos programas ligados às causas populares como o programa “Verdade do Povo”, o programa “Aqui e Agora” na extinta TV Tupi e “O Povo na TV” na TVS, hoje SBT - emissora de Silvio Santos. Antes de apresentar o “Balanço Geral”, Wagner, apresentava o “Cidade Alerta” na mesma emissora, mas estava longe de ser o atual personagem do Justiceiro que veste hoje, estava mais para um cover de Silvio Santos, seu “eterno mestre e padrinho” como o próprio Wagner gosta de dizer, mas o “Cidade Alerta” já gozava de grande popularidade e rendeu à Wagner Montes no ano de 2006 uma expressiva votação de 111.802 votos, sendo o Deputado estadual mais votado na cidade do Rio de Janeiro. No mesmo ano Wagner começa a apresentar o “Balanço Geral”, já revestido do seu atual personagem.

Ainda no livro “Dos Meios às Mediações” (Editora UFRJ 2009, página 170) Jesús Martin-Barbero fala sobre a estrutura dramática e simbólica, tendo como eixo central os sentimentos básicos que são ao mesmo tempo sensações personificadas ou “vividas” por um personagem e que sem muita dificuldade podemos identificar no apresentador/personagem Wagner Montes, vamos ao texto de Barbero: “O Justiceiro ou Protetor é o personagem que, no último momento, salva a vítima e castiga o Traidor. Vindo da epopéia, o Justiceiro tem também a figura do herói. A figura do Bobo no melodrama remete por um lado à do palhaço no circo, isto é, aquele que produz distensão e relaxamento emocional depois de um forte momento de tensão, tão necessário em um tipo de drama que mantém as sensações e os sentimentos quase sempre no limite. Mas remete por outro lado ao plebeu, o anti-herói torto e até grotesco, com sua linguagem anti-sublime e grosseira, rindo-se da correção e da retórica dos protagonistas, introduzindo a ironia de sua aparente torpeza física, sendo como é um equilibrista, e sua fala cheia de refrões e de jogos de palavras”.

Em 2010, revestido e legitimado pelo seu atual personagem, Wagner Montes, destacou-se como o Deputado estadual mais votado da história política do Estado do Rio de Janeiro, com 528.628 votos.